Liceu do Ceará


Sede do Liceu construída em 1894 na Praça dos Voluntários,
Centro de Fortaleza. Desenho de Gustavo Barroso, ex-liceísta.


Liceu vem do grego lykeion, escola filosófica com ênfase para ciências naturais criada por Aristóteles em 336 a.C., rival da Acadêmica Platônica. O Liceu de Aristóteles se tornou um modelo de ensino do antigo curso de humanidades, de modo a inspirar o estabelecimento de várias instituições de ensino,  principalmente o ensino secundário e o profissionalizante, que em justa homenagem, recebem o nome de Liceus.

O Liceu do Ceará é o terceiro colégio mais antigo do Brasil e, mesmo tendo passado por várias crises, no ano de 2005, comemorou seus 160 anos ininterruptos de funcionamento.  Foi criado durante o império (século XIX), assim como alguns colégios contemporâneos de outras províncias, inspirado nos moldes do Colégio Dom Pedro II, uma instiuição-modelo de ensino criada em 1837 no Rio de Janeiro, então capital do império. No intuito de agregar cadeiras já existentes e facilitar a inspeção do ensino público no Ceará, em 15 de julho de 1844, o presidente da província, Marechal José Maria da Silva Bittencourt sancionou a lei n.º 304, criando oficialmente o Liceu:

Art. 1º - Fica creado nesta capital um lycêo que se comporá das cadeiras seguintes: phylosophia racional e moral; rethorica e poética; arithmetica; geometria; trigonometria; geografia, e historia; latim, francez e inglez.

As atividades escolares tiveram início em 19 de outubro de 1845, com 98 matrículas, sob direção do Dr. Thomas Pompeu de Souza Brasil, o Senador Pompeu. O curso secundário tinha duração de 6 anos e, de início, as aulas eram ministradas nas próprias casas dos professores. Somente em 1894, no governo do Coronel Bezerril Fontenele, foi inaugurada a sede própria do Liceu (Figura abaixo), à Praça dos Voluntários, no centro de Fortaleza.

Edifício do Liceu na praça dos voluntários (já demolido),
onde hoje se encontra o prédio da Polícia Civil. Foto do
acervo do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS).
No tempo em que o Liceu foi criado, Fortaleza era uma pequena cidade com pouco menos que 5.000 habitantes, resumindo-se a poucas ruas no centro da cidade. Nessa época, os colégios eram privilégio da elite. Não apenas porque os colégios eram poucos, mas também pelas despesas que representavam a uma sociedade pobre em recursos. Além disso, na época era comum em colégios públicos a cobrança de taxas, como ocorria inclusive no Colégio Dom Pedro II, que reservava poucas vagas para pessoas que não tinham condições de pagar.

Com o crescimento da cidade e o surgimento de novos colégios, como a Escola Normal, o Colégio São João, Colégio Fortaleza, o Cearense, São José, entre outros, o ensino secundário foi se democratizando em Fortaleza, e inclusive no Liceu, que no século XX, passou a ter maior abertura para alunos pobres e oferecer o ensino misto, pois durante muito tempo foi um educandário estritamente masculino. As moças estudavam na Escola Normal.

Todos os ex-liceístas que estudaram até a década de 50 lembram o rigor da disciplina no Colégio. Os alunos só entravam no colégio de fardamento completo: calça, camisa com os 7 botões fechados e quepe. Numa época em que os costumes da sociedade eram muito mais rígidos, a disciplina marcou profundamente o Liceu. Qualquer deslize era motivo de punição.

Para ajudar o diretor e os professores no controle da disciplina, existiam os bedéis (inspetores), que fiscalizavam o fardamento dos alunos na entrada do colégio, faziam a chamada em sala e circulavam pelo colégio observando o comportamento dos alunos. Blanchard Girão, no seu livro “O Liceu e o Bonde” relata que os bedéis, extremamente fiéis, delatavam as travessuras dos alunos para o diretor até fora do colégio; e quando não era mais possível suspender um aluno, por ter feito travessuras depois das provas finais, a suspensão vinha no início do ano letivo seguinte.

Mesmo toda a disciplina da época não conseguiu anular as criancices dos alunos, e até os mais ilustres ex-liceístas cometeram suas travessuras: aplicaram trotes, fugiram do colégio para matar aula, aprontaram com os bedéis, professores e outros alunos, fizeram pichações, e reuniram-se para fumar no banheiro, como registra Gustavo Barroso, em seu livro "Liceu do Ceará".

Os professores do Liceu eram os melhores do estado e, às vezes, até de fora, pois para ser professor catedrático do Liceu era necessário passar por um rigoroso concurso público, tendo que defender tese e mostrar todo seu conhecimento e integridade moral. Além disso, os professores trabalhavam motivados: eram amplamente respeitados  e admirados pelos alunos e o resto da sociedade. Ser professor era uma das mais nobres profissões e os salários dos professores equiparavam-se aos de desembargadores.

A escola funcionava e a educação realmente acontecia pois os professores eram bons, trabalhavam motivados e os alunos tinham interesse em aprender. Esses recebiam uma formação multidimensional. Além das aulas teóricas de português, matemática, história, biologia, etc, tinham aulas de música, praticavam esportes olímpicos, tinham formação política extracurricular e um grande crescimento pessoal devido à convivência com alunos de diferentes classes sociais.

Como diz Blanchard Girão, o Liceu era um espaço de politização e mobilização estudantil, uma vez que os professores já admirados elos alunos, tinham total liberdade para discutir com os alunos os assuntos mais polêmicos da atualidade. O Liceu formava então alunos politizados e também atuantes. Era comum ver os alunos do Liceu em passeatas agitadas pelo centro de Fortaleza, protestando contra o aumento dos salários dos deputados estaduais, à favor da anistia de presos políticos ou contra o nazismo, durante a segunda guerra mundial:

Alunos do Liceu na época da II Guerra Mundial (Estado Novo),
em passeata a favor da democracia e contra o fascismo.
Foto do livro “O Liceu e o Bonde” de Blanchard Girão.

Por tudo isso, até a metade do século XX, o Liceu foi o expoente da educação no Ceará. Matricular-se no Liceu era tanto quanto ser aprovado no vestibular. Os alunos tinham orgulho de vestir sua farda. O liceu se projetava em todos os planos: tinha o melhor corpo docente, os melhores estudantes, o maior índice de aprovados em vestibulares, campeão de olimpíadas estudantis, vitorioso nas paradas cívicas da Semana da Pátria, a tinha a melhor banda, além de ex-alunos bem sucedidos nas mais diversas profissões no Brasil e no exterior.

Tamanho era o privilégio de estudar no Liceu, que os veteranos rotineiramente aplicavam trotes aos novatos, que eram chamados de bichos-fedorentos, como ilustra Gustavo Barroso, ex-liceísta do início do século XX, no seu livro Liceu do Ceará:

“Não houve bicho fedorento que escapasse totalmente aos trotes dos desalmados veteranos do Liceu. Todos fizeram discursos bestialógicos trepados na margela do cacimbão da praça, em riscos de cair lá dentro. Todos subiram ao cocuruto do chafariz Wallace, para fingir de estatua. Todos se escancharam nos galhos das árvores e fôram cassados a caroços de monguba, como guaribas. Um dia encheram de estrume fresco de cavalo o boné de xadrezinho que eu trazia do colegio e m’o enterraram até as orelhas. Lavei a cabeça, mas o boné ficou imprestavel e teve de ir para o lixo.”

Com toda sua qualidade de formação dos alunos e seu ambiente de erudição, o Liceu produziu inúmeros intelectuais, políticos, escritores, jornalistas, médicos, empresários, desportistas e músicos de projeção nacional e internacional – personagens importantíssimos da história de Fortaleza, do Ceará e do Brasil. Entre eles: Adolfo Bezerra de Menezes, Guilherme de Studart (Barão de Studart), Gustavo Barroso, João Brígido, Clóvis Beviláqua, Eleazar de Carvalho, Raimundo Girão, César Cals de Oliveira, Farias Brito, Plácido Castelo, Perboyre e Silva, Parsífal Barroso, Antônio Girão Barroso, Paes de Andrade, Edson Queiroz, Blanchard Girão, Fausto Nilo e Belchior. Além do “Bando Liceal”, do qual surgiram bandas de ex-alunos como “Quatro azes e um coringa” e os “Vocalistas Tropicais”, que fizeram sucesso em todo Brasil nas décadas de 40 e 50.


Prédio onde o Liceu funciona desde 1937, na praça Gustavo
Barroso (antes, Praça Fernandes Vieira), no bairro de Jacarecanga
Hoje o Liceu é mais um colégio da rede estadual de ensino público. Oferta o curso de Ensino Médio – EM e funciona nos três turnos. Pela manhã e pela tarde, são em média 9 turmas por série (1º, 2º e 3º ano) e duas turmas de pré-vestibular. Pela noite, há 5 turmas de cada série e 6 turmas de pré-vestibular. No total são 30 turmas de manhã, 29 de tarde e 21 de noite. Cada turma possui no máximo 40 ou 60 alunos, dependendo do tamanho da sala. Devido à evasão, no período diurno as turmas possuem em média 40 a 50 alunos, e no período noturno, no qual a evasão é maior, possuem em média 30 a 40 alunos. 

FONTES:
BARROSO, G. A. L. G. D. C. Liceu do Ceará, Rio de Janeiro: Ed. Getulio M. Costa, 1940, 220p.

GIRÃO, B. O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza-província, Fortaleza: Editora ABC Fortaleza, 1997, 300 p.

MENEZES, M. O. T. O Liceu não é mais o mesmo, Monografia de Graduação, Licenciatura em Ciências Biológicas, UFC, Fortaleza, 2007, 46 p.

VIEIRA, S. L. & FARIAS, I. S. de, História da educação no Ceará: sobre promessas fatos e feitos, Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002, 400p.