Marcas de Gado

O hábito de marcar rebanhos com ferro em brasa existe pelo menos desde o Império Romano. A prática consiste basicamente em identificar a comunidade ou o criador ao qual o gado pertence. Isso se faz necessário em virtude da dispersão do rebanho, que nem sempre fica completamente unido. Essa tradição permanece em várias regiões do mundo, como é o caso do Ceará.

Durante a estiagem anual, é comum que o gado se distancie da propriedade em busca de novas pastagens. Nesse período do ano o gado de diferentes rebanhos se misturam e se espalham por diferentes regiões do estado, sendo tais marcas de grande importância para o conhecimento da origem do gado. No Ceará, Gustavo Barroso, Idelfonso Albano e Sílvio Júlio foram os que mais se dedicaram ao estudo das marcas de Gado. Além de sua importância cultural e histórica, é um fenômeno muito interessante que obedece rigorosa lógica. Como explica Silvio Júlio (1936):

"Na terra de sol o gado passeia livremente por fazendas sem cêrcas e é reconhecido pelo risco da côxa direita: – o do dono, e pelo risco da côxa esquerda: – o da freguezia. Póde uma rêz perder-se até trinta léguas, que o sinal do proprietário dirá a quem ela pertence. Póde, ás vezes, uma rêz passar dessa distância e chegar a lugares onde o sinal do proprietário seja inteiramente ignorado. Como as freguezias são poucas e suas marcas invariáveis atravéz dos séculos, o risco da côxa esquerda, neste último caso, indicará a zona de origem da rêz desgarrada."

Os símbolos das "freguesias" (comunidades ou município) são estáveis ao longo do tempo, e as marcas dos donos, hereditárias, passando de pai para filhos com sutis modificações (cada um confere à marca de seu pai, um detalhe que lhe diferencie).

Exemplo de variações na marca do proprietário dentro de uma família.

As marcas dos proprietários e freguesias não resumem-se às suas iniciais, mas compreendem também símbolos culturalmente criados ou mesmo alusões à história, a fatos, à geografia, a animais e outros fenômenos ou objetos. Por exemplo, a marca do Município de Cascavel é um "S". na verdade o símbolo remete à forma de uma cobra. Já a marca de Jardim é um "Z", pois durante muito tempo, este município foi o mais meridional do estado, assim com o"Z" é a última letra do alfabeto.

Principais marcas de Freguesias do Ceará. FONTE: Júlio (1936).

Outros exemplos interessantes são o de Aracati (em forma de cruz), marca atribuída ao antigo nome do município ("Santa Cruz de Aracati"); de Barbalha ("K", que remete aos índios Kariris); Canindé ("F", em homenagem a Sâo Francisco); Araripe ("B", devido ao antigo nome de "Brejo Sêco"); e de Redenção ("Ac", pois o nome do município era Acarape, e só passou a chamar-se "Redenção" após a abolição dos escravos no Ceará).

Além disso, as marcas de gado estão relacionadas com outra tradição, que é a de zelar pelo gado de outros proprietários. A escassez de água nos séculos iniciais da colonização do nordeste fez os sertanejos valorizarem o gado, colocando-o acima do valor de propriedade particular. Como registra Silvio Júlio (1936), quando alguém recebia em sua propriedade uma rês errante, pertencente à outra pessoa, esta era cuidada do mesmo jeito que suas próprias, sendo depois o receptor ressarcido por suas benfeitorias.

FONTE:

Júlio, S. Terra e Povo do Ceará, Editores Carvalho e Cia. Ltda, 1936, 197 p.